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A literatura infantil radical e novos imaginários urbanos

A infraestrutura urbana não é inevitável, ela pode ser mudada. Livros que mostram como as crianças experienciam a cidade de diversos modos podem ser um dos primeiros passos para começar a discussão desde cedo e criar novos imaginários urbanos.
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Nunca imaginei como eu seria quando fosse pai, mas tinha uma coisa que eu realmente sonhava em fazer: ler histórias para dormir, como vemos nos filmes. Então, quando meu filho pequeno estava pronto, criei o ritual do livro antes de dormir. Sempre pensei que esse momento seria lindo. Não foi bem assim. 

No final do dia, normalmente estou tão cansado que só quero que ele durma. Mas eu tinha de ler. E, como eles geralmente pedem a mesma história várias vezes, tento ser exigente com os livros que tenho em casa, mas não tem jeito. Livros de personagens famosos sempre encontram um caminho para nossas casas e de repente você se encontra lendo uma história pouco criativa da Peppa Pig. 

Certo dia, eu estava mesmo lendo um livro da Peppa Pig e resolvi fazer uma nova versão. Substituí a frase “Papai Pig dirige seu carro para o trabalho” por “Papai Pig vai de bicicleta para o trabalho”. Erro terrível. Pior que cortar o pão (ou não cortar, depende do dia). Fui imediatamente corrigido: “Não, papai! Ele dirige o carro para o trabalho”. Segue o jogo. Em outra oportunidade, tentei “vai de metrô”. Noutra, “vai a pé”. Fui corrigido todas as vezes. 

Hora da leitura antes de dormir. Um momento mágico, só que não (Foto: Arquivo pessoal)

Comecei a prestar mais atenção em como a mobilidade é representada nos livros infantis e encontrei a categoria sobre transportes na Amazon.com, que também se chama Cars, Trains & Things That Go (Carros, trens e coisas que andam). “Coisas que vão” é realmente uma definição curiosa. Como se nós, seres humanos, não fossemos coisas que vão.

Dos 50 livros infantis mais vendidos nesta categoria da Amazon.com, 41 tinham um carro ou caminhão/picape na capa, 6 tinham trens, 5 um avião ou helicóptero, 4 estampavam um ônibus, 3 tinham um barco e apenas um tinha uma bicicleta. Nenhum livro mostrava um personagem caminhando como meio de transporte.

Até mesmo cães falantes e supertecnológicos precisam de carros para salvar seus amigos em risco (olá, patrulha canina). Livros ilustrados e desenhos animados populares mostram carros como o normal para nos locomovermos. 

Propagamos um imaginário voltado para o carro desde a mais tenra idade.

Um dos livros que mais me deixou perplexo, foi sobre um urso que dirige até a praia e, no trajeto, acaba por dar carona a outros animais que ficaram pelo caminho, um porque a bicicleta quebrou, outro porque o transporte público não passou. Não duvidaria se alguém descobrisse que o livro saiu diretamente do marketing de uma grande petroleira ou fabricante de automóveis. 

Monocultura urbana

Sim, carros podem ser muito úteis, mas não devem ser a resposta para todas as nossas necessidades de transporte. Quando isso acontece, temos um grande exemplo de motonormativity (em tradução livre, motonormatividade), que é nosso viés cognitivo que esconde os principais perigos da cultura do carro. Esse viés permeia filmes, séries, livros e histórias que dão um valor ao carro maior do que ele realmente tem. A famosa cultura do carro, que monopoliza o imaginário urbano e nossas visões para o futuro. 

Esse imaginário não é neutro. É construído e compartilhado. A ideia de um imaginário social conecta vários campos de estudo, da psicologia à arquitetura. Como descrevem os filósofos e críticos sociais Cornelius Castoriadis e Charles Taylor, o imaginário social nos dá “um senso de quem somos, como nos encaixamos, como chegamos onde estamos e o que podemos esperar uns dos outros na realização de práticas coletivas que são constitutivas do nosso modo de vida”. 

Cidades orientadas para carros restringem o movimento e o desenvolvimento completo das crianças (Foto: Arquivo pessoal)

É uma questão de imaginação. É por meio de histórias que tentamos dar sentido ao mundo e tentamos criar algo diferente da realidade. Como essa rua pode ser diferente? Sem imaginação, não há esperança porque somos incapazes de pensar em algo melhor do que isso. Esse imaginário coletivo é a matriz da inovação e da mudança. 

Mas é também uma questão de infraestrutura. É relmente difícil pensar em ruas que priorizem o deslocamento ativo e o transporte público quando se está cercado por infraestrutura de carros particulares. É difícil para crianças e adultos. Felizmente, tanto as construções imaginárias quanto as reais não são estáticas. Elas se alimentam mutuamente, estão sujeitas a mudanças pequenas e mudanças radicais.

Nesse sentido, os livros infantis oferecem uma oportunidade de impactar tanto as crianças quanto seus cuidadores. Afinal de contas, os livros ilustrados não são apenas para crianças. Eles são escritos por adultos e lidos, na maioria das vezes, por adultos. Os contos de fadas, por exemplo, sempre tiveram um propósito: transmitir valores culturais, “civilizar”, criar papeis para as crianças e fazê-las se submeter à autoridade.

Se confiamos nos livros para ajudar as crianças a lidar com as emoções e ensinar como interagir com outros seres humanos, por que não podemos almejar novos imaginários urbanos? 

Livro “Tales for Little Rebels” (NYU Press, 2008)

Para que serve a literatura para crianças?

É nesse ponto que a Literatura Infantil Radical pode ser útil. O conceito apareceu pela primeira vez para descrever livros publicados entre 1910 e 1949 na Europa e na América do Norte. Essas publicações abordavam mudanças políticas, culturais e sociais que estavam ocorrendo na época. Os escritores viam os livros infantis como uma forma de desafiar as normas dominantes e criar a vontade social necessária para mudar a sociedade.

A literatura infantil radical quase foi esquecida, mas ressurgiu na última década com uma antologia e alguns estudos acadêmicos. Embora não seja um movimento estético ou um grupo coerente, esses livros tentam abordar as raízes de muitas suposições errôneas sobre as crianças e a infância, bem como as causas da desigualdade, da injustiça e da exploração em todo o mundo.

Philip Nel, um estudioso de literatura infantil dos Estados Unidos, escreveu um manifesto que clama por mais literatura infantil radical. Seguindo a pedagogia de Paulo Freire, o artigo tem 40 pontos sobre como livros infantis radicais ajudariam a criar um mundo mais justo. Alguns deles são: 

  • A literatura infantil radical apresenta o mundo como um problema a ser resolvido, e não como um dado a ser aceito
  • Ela é esperançosa, mas reconhece que a esperança não é apenas pensamento positivo. A esperança requer ação
  • Pergunta-se: “felizes para sempre” para quem?
  • Escuta as crianças e considera seus pontos de vista
  • Promove condições para o florescimento humano e a responsabilidade coletiva
  • Incentiva a análise cuidadosa e empírica

Assim como esses escritores da primeira metade do século XX, estamos passando por um momento de transformação política, cultural e social. Assim como eles, vimos o avanço de ideais de extrema direita e o rápido desenvolvimento tecnológico. E temos outro grande desafio para lidar: a emergência climática. 

Precisamos urgentemente desenvolver literacia urbana e contar histórias nas quais as crianças sejam ativas nas ruas.

Precisamos de histórias que incluam os leitores em debates sobre desigualdades socioespaciais, promovam o ciclismo e a caminhada como uma forma de se locomover e explorar o ambiente ao redor. Histórias que inspirem o ativismo. 

Se quisermos ter um futuro com maior justiça social e oportunidades para todos, esse futuro começa com crianças que sejam capazes de questionar o status quo. Essas crianças precisam de livros que as ajudem a pensar criticamente sobre o mundo, que as ensinem a consumir menos e que lhes mostrem o poder que podem obter por meio da organização . 

Como diz Reynolds, no livro Left Out: The forgotten tradition of radical publishing for children in Britain 1910–1949, “a transformação social não é simplesmente uma questão de desejo e legislação; ela exige novas visões que, por sua vez, dependem de novas formas de conhecimento e novas maneiras de ver o mundo”.

Será que se escolhermos cuidadosamente suas histórias, eles sonharão com novas paisagens urbanas, ruas orientadas para pessoas, onde estarão seguros para brincar, explorar e criar vínculos com os vizinhos e a natureza ao redor? 

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Peter Füssy
MA in Media Studies, multimedia journalist, researcher, migrant, and mobility activist. He once tested supercars for a living. Then he moved to Amsterdam, discovered walkable cities, and never looked back. Today advocates for streets made for people, not engines, and creates books that help kids imagine better cities.

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