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Thiago Franco: “É importante saber brincar a brincadeira do outro”

Conversamos com o autor do livro "Além das nuvens" sobre criar histórias orais, sobre transpor as texturas do ateliê para o papel e a importância do brincar para construir uma coletividade mais inclusiva e justa.

Thiago nasceu no interior de São Paulo e já brincou em variados quintais e lugares do mundo. Formado em letras e linguagens das artes, ele concentra as suas pesquisas na primeira infância, criando experiências artísticas que encantam as crianças (e os adultos também). 

No Brasil, já colaborou com os Serviços Educativos da Bienal de São Paulo, Museu Lasar Segall e CineSesc. Também desenvolve projetos culturais em escolas e espaços de artes em Portugal. Thiago tem dois livros infantis publicados: primeiro foi “O rei careca” (Mais Diferenças, 2019), e o segundo, “Além das nuvens“, inaugurou o catálogo da Movi Books em 2025. 

Nessa entrevista, conversamos sobre seu processo de criação de histórias, que começa na oralidade e no teatro, sobre transpor as características do ateliê para o livro e sobre a importância do brincar para construir uma coletividade mais inclusiva e justa. Assim como suas histórias, a entrevista foi editada aqui abaixo para maior clareza e melhor leitura, mas quem quiser pode ver o vídeo da entrevista.

A história do “Além das nuvens” já existia muito antes, mas como foi que ela surgiu para você, Thiago?

Olha, essa história surgiu há dez anos, mais ou menos, aqui em São Paulo, onde eu já vivia. Na época, o centro tinha muitos espaços públicos que estavam abandonados. Tinham acabado de reabrir o “Minhocão” aos finais de semana para começar a ocupação pública, então eu decidi contar histórias nas ruas de São Paulo, para que eu pudesse conhecer pessoas, me testar dentro das artes, criar novas histórias, porque as minhas histórias vão surgindo assim a partir dos meus encontros com outras crianças, com outros adultos, e misturando essas histórias. Para quem não é de São Paulo, o “Minhocão” é um elevado, uma ponte gigante que parece uma serpente, uma minhoca que corta o centro de São Paulo na altura dos prédios, uma linha muito longa, sem carros no final de semana, para a gente, para as pessoas. E aí eu fui para fazer “O rei careca”, que era a minha primeira história. Só que lá em cima, eu pensei: “Nossa, daqui dá para ver o céu melhor. No centro de São Paulo, tem essa linha comprida e dá vontade de brincar na rua”. Isso começou a me tocar: brincar na rua, nos espaços.

Já era uma época em que eu olhava para o lado e percebia a tecnologia ganhando espaço com as crianças, que iam deixando de brincar com outras crianças, e começando a descobrir os computadores, os tablets, os jogos de videogame, e elas estavam sendo abduzidas.

Pensei: “É isso, uma história que convida as crianças a virem para a rua de novo para olhar o céu”. Comecei a criar vagarosamente. Fui dando linha para essa pipa, para essa história, e ela foi surgindo. Já contei sozinho, com parceiros, palhaços, na praça, no teatro. Durante dez anos, fui testando essa história, mudando com ela, vendo como cabia na boca, vendo o interesse também das crianças, dos familiares, até ela chegar nesse formato de livro. Então, foi assim na rua, olhando para o céu com outras tantas crianças aqui no Brasil.

Eu não sabia mesmo a história de como surgiu. É uma história oral no começo, e nós passamos para o livro. Por que você achou importante mudar de plataforma da história oral para o livro?

Eu não sei se é polêmico, pode ser, mas eu fiquei um tempão pensando, e dizendo, e trabalhando, que as minhas histórias nunca seriam livros. Eu queria que elas fossem de forma oral, que elas fossem sendo passadas, compartilhadas, fossem ganhando formas. E eu gostava muito que sempre fosse nesse formato. Tenho muitas histórias, só que chegou um determinado momento em que eu percebi que é importante a escrita, no formato de livro, por exemplo, que também é um registro, que também se aproxima o máximo possível da criação original, para que outras pessoas pudessem conhecê la e transformá-la, talvez. E também restringia muito as pessoas ouvirem as histórias às que estavam próximas a mim.

E eu pensei: “Poxa, se ela virar um objeto, um livro, uma coisa, um objeto que possa chegar em pessoas, em outros lugares, que não dependa só do oral, da voz, de mim ou de quem está perto, talvez eu consiga fazer com que ela exista mais tempo”. E aí eu me desdobrei, falei: “Tá bom, é melhor ter um livro, né?”

E aí eu comecei nessa luta de, tá mas e aí como é que faz para virar um livro? Quando eu estou contando de forma teatral, eu ponho a nuvem, penduro a luz, essas são as ilustrações de quando a gente está contando a história. Cenário, figurino, as pessoas estão ali na plateia, e elas vão mudando, elas são vivas. Tem que ter uma ilustração para ser o meu cenário do livro. E uma dúvida minha era, quando entreguei a minha história para quem vai ilustrar, como é que vai chegar essa ilustração? Tem a ver comigo? Tem a ver com a pesquisa? Será que a ilustração vai mudar a história? Porque às vezes a ilustração muda, ela cria uma outra narrativa, um outro subtexto. Então eu tinha muito medo disso. Ainda bem, fui muito feliz nessas duas publicações até agora, do livro continuar com a ilustração, e ficar maior, e ficar mais bonito, mais potente.

Espera. Você acha que ficou mais bonito e mais potente do que uma história oral? Como?

Eu acho, porque quando eu estou contando a história e fazendo as apresentações, tem o cenário, as texturas, meu trabalho como ateliêrista. Isso vem vindo como referência em tudo. E depois acaba. Desmonta, guarda, e a história fica ali voando, flutuando no invisível. Quando virou livro, esse cenário, essas texturas e tudo que a ilustradora colaborou continuam ali. Então eu posso, por exemplo, revisitar a história em silêncio, sem ler as palavras, olhando para a ilustração, e a história está ali. A Bruna Lubambo, que é uma ilustradora maravilhosa, tomou cuidado de olhar para o meu caminho, que é ateliêrista, de misturar os materiais, de trazer textura, e ela também realizar desejos dela, como de bordar a mão e de trazer essas manualidades. Então eu fui vendo muito de mim na mão de outra pessoa. É o que as pessoas geralmente olham e falam “que textura!”, “tem página que parece 3D”, mas é porque teve esse cuidado de trazer toda essa estética de cenário do teatro para dentro da feitura da ilustração, que teve desenho manual, digital, costura no tecido. Só quem pega esse livro consegue sentir mesmo qual é a textura dessa história. Então, acho que por isso que aumentou, foi dado um bom laço aí, nessa união, e a editora também acreditou nisso. Foi um encontro.

Conseguimos encontrar a ilustração que refletia muito bem a ideia da história oral. Isso foi incrível mesmo. Mas agora eu quero saber, e a história? Você disse que a história pode mudar quando ela muda de plataforma, como foi no processo do “Além das nuvens”? A história mudou ou não?

Acho que um grande exemplo que ficou diferente é, quando eu estou contando a história no teatro, na contação, na imaginação do Nuno, quando ele está segurando a linha que vai além das nuvens, eu apresento alguns bonecos de linhas desconstruídos, sem forma exata. E as pessoas que estão ali podem tocar esses bonecos e me dizer o que eles parecem. Na ilustração, a gente queria que seguisse esse lugar. De que olhassem para forma e não tivesse uma forma concreta. Cada leitor, cada criança podia olhar e falar: “Hum, isso parece uma formiga, um dragão, uma borboleta”. Então foi um desafio para a Bruna fazer isso, de fazer meio desconstruído. A ilustração sempre aponta um pouco mais para uma forma definida, porque é muito difícil, não é um material vivo de linha que você puxa. Mas a Bruna fez isso brilhantemente. E aí o meu medo era que quando as pessoas olharem para isso aqui, vai ficar muito direcionado. Vai ser um peixe. Isso vai ser um dragão.

E o que eu tenho testado agora em pequenos grupos com o livro, por exemplo, quando aparece o Nuno segurando a linha além das nuvens, essa forma pode indicar um peixe. E no texto, também indica que ele está imaginando que é um peixe. E aí, quando eu mostro para as crianças, eu pergunto: o que é isso? Aí, ontem, nessa cena eles falaram tudo menos um peixe. Falaram que era um dragão, um cachorro invertido, um pirulito. E aí eu deixo eles falarem sem eu ler muito e eles vão me dando formas. Então acho que ficou diferente, porque no teatro tem os objetos que me ajudam. E na ilustração, está aqui um pouco entregue, mas o que se assemelha é a imaginação da criança. Se a gente deixa na mediação de leitura, e na mediação de contação de histórias, que é onde eu deixo aberto para eles criarem, a gente vai mais longe com essa linha. Então acho que tem essa diferença no modo de existir, mas no modo de fazer que é aberto, ao deixar acontecer, continua acontecendo.

Sim, a imaginação, né? É muito importante mesmo. E no livro tem um polo de oposição à imaginação que é a tecnologia. Como é que você vê hoje essa relação entre as crianças e a tecnologia? E como incentivar e estimular a imaginação, mesmo concorrendo com a tecnologia?

Primeiro, eu não sou contra a tecnologia. Ela está aí. A gente tem que viver a tecnologia e usá-la para o nosso bem, porque nos faz evoluir, nos conectar. A crítica no livro é o excesso dela. É o excesso de telas. É só brincar na tela. É só brincar sozinho, com alguém virtual. A ideia é que a gente se divida nesse novo mundo, que a gente possa continuar existindo nele corporalmente, brincando com outras pessoas, e que a gente possa usar a Internet para as tecnologias, na medicina, na comunicação, nos estudos, para que facilite a vida também. E me desculpe, eu fiquei empolgado e conectado nessa coisa, a segunda parte da pergunta foi… 

Como estimula isso? Como incentivar e estimular a imaginação das crianças hoje, concorrendo com a tecnologia?

Eu acho que é uma luta sempre porque a gente tem percebido, por exemplo, que muitas vezes numa contação de histórias é difícil prender o público. Geralmente, a gente sempre fazia 50 minutos, uma hora. Hoje, nos 30 minutos muitas vezes as crianças já estão desconectadas, porque o tempo de acontecimento, de mergulho, de presença é menor. Eu acho que a primeira coisa é lutar contra o tempo, que ali na mídia, na tecnologia, acontece tudo mais rápido, uma enxurrada de informações, jogo, tudo é rápido. E aí, no teatro é diferente, na contação, na leitura. Então, acho que é chamar para junto, propor ir ao teatro, ouvir histórias presencialmente, fazer essas oficinas que são corporais e, sobretudo, brincar. O brincar é uma ação que nasce com a gente. Desde quando a gente tá na barriga da mãe, a gente tá se movimentando, escutando os sons das águas, da batida do coração da mãe. Quando a gente vem pro mundo, descobre o nosso corpo, o pé, a mão, e essa relação corpórea de imaginar, de brincar, de usar os brinquedos, de usar objetos, de trocar, sobretudo, com outras crianças, para ampliar repertório. Eu posso brincar sozinho, minha criança pode brincar sozinha, isso é ótimo também.

Mas é importante que esteja no coletivo, porque os repertórios são trocados na hora do brincar. E aí, a gente desdobra uma humanidade maravilhosa, com senso crítico, com senso de diferença, com senso social, com coletividade. Brincar resulta em imaginar. Imaginar resulta no adulto que vai pensar possibilidades diversas pro mundo. 

Muito bom mencionar o brincar, porque nós estamos perto da semana mundial do brincar. Como você definiria uma boa experiência de brincar que envolva arte, imaginação para uma criança de zero a seis anos?

Sabe que a Semana Mundial do brincar desse ano tem um tema que já tem tudo a ver com isso, que é a potência do encontro. Então, quando a gente se encontra com outros, com espaço, e também com os materiais, que são os objetos materiais de ateliês, nesses encontros, por meio das artes, que são todas experimentais, no sentido de tocar, sentir, atravessar, experimentar com o corpo, a pintura, o jogo, o teatro, a dança, a fotografia, e dentro do universo das crianças, elas experimentam o mundo com o corpo. E experimentar as artes e todas as suas linguagens, também deveria ser com o corpo todo. Então, para mim, para a gente que está pesquisando esse assunto, é potente, porque elas estão entregues ali com o corpo. Então, enquanto eu crio uma pintura no quadro, eu estou imaginando que cenário é esse? Estou usando o meu corpo todo. Que depois se transforma numa dança ou numa cena de teatro. Aquele quadro e essas linguagens vão me deixando, ou melhor, convidando as crianças para que esse jogo lúdico aconteça também nessas construções artísticas.

Eu acho que brincar é uma ação livre. Ela deve ser livre, mas as artes ajudam a apontar caminhos, conduzir, direcionar, às vezes, para repertórios e temas que vão ajudando a criança a transicionar da infância para a vida adulta, mantendo a ludicidade, e tendo esse senso crítico do mundo através das artes.

Então eu acho que pela semelhança de corpo, ludicidade e imaginação/senso crítico que o brincar e as artes estão conectadas. Ou deveriam estar desde a infância. E não só uma arte, não é só um desenho na escola, tá gente? Educadores que estão aqui com os muito pequenos, o desenho é maravilhoso, uma das primeiras manifestações artísticas, mas tem que ir para outras linguagens também, explorar essas linguagens, tá? Traz tudo para as crianças.

Como começou a sua ligação com as artes e o mundo da infância? Foi algo que você foi atrás, foi natural, ou você foi descobrindo? 

Olha, segredo, vou revelar aqui. Na verdade, eu nunca quis. Minha mãe me dizia que quando eu era bem pequeno, desde sempre, no carrinho de bebê, ela me empurrando, eu sempre olhava pra outros bebês e dava risada, sorria. Ela falou que os bebês se conectavam muito comigo. Aí quando eu fui crescendo, isso continuou acontecendo, mesmo depois de adulto, e eu não era consciente, mas sempre me dei muito bem com bebês e crianças. Então, estava sempre por perto, brincando, mas eu nunca quis. Eu comecei no teatro e falei: “Quero fazer teatro para adulto”, stand-up que era a moda da época. Então, fui fazer Letras, estudei jogos teatrais. E num dado momento, já na pós em Linguagem das Artes, apareceu um trabalho pra mim em dois colégios, para dar aula de teatro, da pedagogia, mas eu tinha que assumir as aulas também do colégio. Eu falei: “Tá bom, vamos lá”. Eu fui, e assim, já me apaixonei. E aí eu fui abandonando um pouco os adultos, adolescentes, abandonei para todo o sempre, me perdoem os adolescentes, e fiquei só com as crianças. Fui me especializando em todas essas outras artes, e aí fui me encontrando. E aí uma pessoa, que era o diretor de TV, falou: “Vamos fazer um programa infantil? Você é bom nisso”. E eu criei meu primeiro personagem, que era um clown, palhaço caipira, que era o Chico Belezura, que contava causos. Um programa bem simples, produzido no interior. Eu fiquei uns quinze anos com esse personagem, e fui tomando gosto. Acho que a virada mesmo, foi quando a Bienal de Artes (de São Paulo) me chamou pra trabalhar como educador no Educativo, e aí eu comecei a direcionar minha pesquisa para a primeira infância. A gente criou vários programas dentro do educativo da Bienal para receber as crianças, há dez anos até hoje, a última foi ano passado. Então foi assim, primeiro eu neguei, aí eu descobri, me apaixonei e aí eu me entreguei.

Uma última pergunta: Se você pudesse deixar uma mensagem só para as crianças que leem o Além das nuvens, qual seria?

Minha mensagem seria: encontrem um carretel de linha e essa linha vai servir para vocês conectarem toda a imaginação de vocês, que vocês nunca abandonem esse carretel de linha, que essa linha seja comprida, seja resistente e que sirva pra empinar pipa, para se conectar às pessoas, para criar pular corda, outras brincadeiras. Brinquem, imaginem e se escutem, que na escuta a gente aprende, a gente troca. É importante saber brincar a brincadeira do outro, saber trazer o repertório e a ludicidade do outro. Era pra ser uma mensagem pequena, né, gente, Mas é isso. Carreguem o carretel de vocês aqui no bolso.

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Peter Füssy
Ex-jornalista, designer multimídia, pesquisador, migrante, ativista de mobilidade e cozinheiro particular do Tom. Depois de morar por quase 4 anos em Amsterdam, Peter converteu-se de jornalista de carros a escritor anticarros. É fundador da Movi e autor de dois livros ilustrados

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